CLAUSTRO, 2019 – MANTA ASFÁLTICA LÍQUIDA SOBRE TELA/ LIQUID ASPHALT ON CANVAS. 120 x 90 cm CADA PEÇA /EACH PART
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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Esta série de quatro pinturas de médio formato propõe uma espécie de labirinto. Indicam quatro direções, quatro possibilidades, quatro perspectivas. Embora diferentes, elas simulam uma mesma cena em momentos diferentes. Como se o tempo houvesse passado, e o mesmo lugar estivesse irreconhecível em relação ao que era anteriormente.  

 

Tais paisagens têm como referencia imagens capturadas por mim com uma pequena câmera de lente grande angular, posicionada rente ao solo, numa reserva de mata atlântica localizada no Parque Estadual Costa do Sol, no estado do Rio de Janeiro.  

 

A série Claustro é composta de quatro cenas que apelam ao temor reverencial diante de uma natureza claustrofóbica. No entanto, ao mesmo tempo que promovem impressão de caos, as paisagens repletas de detalhes generosos e composições assimétricas acolhem os olhares e causam sensação agradável e pitoresca.

 

O termo pitoresco surge no século XVIII para propor uma nova categoria estética voltada para paisagem natural. Segundo Argan (1909 – 1992), o pitoresco se expressa na jardinagem como ato de educar a paisagem natural. Diferente do sublime que traz sensação de pavor através da indomabilidade da mesma natureza. Tanto um termo quanto outro não somente estão contidos na raiz do Romantismo como movimento estético, senão também nessa série.  

 

No inicio do século XIX pintores europeus vieram ao Brasil com o objetivo de retratar as peculiaridades da natureza local. O país era basicamente fechado aos estrangeiros até meados de 1808 quando Dom João de Bragança mandou abrir os portos para os países considerados por ele como Nações Amigas.

 

Em menos de uma década aportaram então diversas missões europeias que tinham como principal função retratar o Brasil e colecionar vastas referencias visuais jamais vistas na Europa.

 

Com as missões artísticas vieram Debret, Rugendas, Taunay, entre outros, estudando cada detalhe a fundo, a fim de mostrá-los na volta ao velho continente através de futuras publicações repletas de imagens e textos. 

 

Claustro contem o espirito do retrato missionário da paisagem brasileira, mas não sem antes usar do piche tóxico para retratar o verde orgânico. O material empregado na técnica da reprodução da imagem, o asfalto líquido, traz na sua textura todo um passado, muito mais antigo que a natureza retratada. O meio é basicamente oriundo  do combustível fóssil que resume toda historia que culminou na imagem pintada.

 

O uso da tinta asfáltica não deixa de ser uma estratégia para aprisionar nesse meio, o conteúdo de toda a série. Ou seja, o uso do derivado de petróleo se comporta como um artificio para que se evidencie muito mais o peso de um passado do que o caos retratado em cena. Desse modo, os quatro registros instigantes da mesma paisagem estão retratados como um fascinante e temeroso paraíso, procedente das profundezas do solo nacional.

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Lightening attractors is a series of ten figurative drawings that use the language of technical drawing to offer an alternative to the obvious.

 

Electrical diagrams and layout and structural schemes taken from instruction manuals of some of the most popular house appliances served as the basis for the reconstruction of ten eccentric devices, adapted for a unique and mythical role: to attract the atmospheric discharges. In this way, a simple drill is equipped with a Franklin rod in place of a common drill so that it can summon thunder when pointed to a cloud loaded with ions.

 

Injected with a fictitious load, the white pencil drawings on black background deconstruct any minimalist trait found in the informational documents that accompany such appliances. And in place of “information” and “instruction,” “doubt” and “reverie” appear strategically to highlight art’s natural disposition to link the immaterial to the visible.

 

Although invisible, electrical energy is present when the light comes on or when the fan is turned on. The electromagnetic field can only be hinted at by its idea, but it becomes physical and incisive when we see it before our eyes when an object moves or stops moving. In a similar way, the lightning is the opportunity to watch the electric energy take form and behave as an image. That is, lightning becomes a monumental opportunity that the atmosphere gives us to see the energy of an electric discharge.

 

How to see an ion with the naked eye? How to position yourself before an idea without form?

 

Like the lightening, the art object can provide a time and a space for a glimpse of what is not accessed within the most abstract conditions of everyday life. In other words, art is perhaps the possibility of accessing what the everyday does not invite us to see, which is why it often confuses more than it clarifies.

 

To conclude, Lightening attractors render possible the desire to make real or visible what is hidden in our brazen world. However, it may be that this series is no more than a failed attempt at communication. So be it. In this case, it is yet another tribute to the failure of construction of language.

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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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