O MIRANTE, 2019 – MANTA ASFÁLTICA LÍQUIDA SOBRE TELA /LIQUID ASPHALT ON CANVAS. 155cm x 194cm
FOTO DE/ PHOTO BY EDOUARD FRAIPONT
FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
_PORT

Essa paisagem feita com tinta asfáltica explora os recursos da perspectiva, para transmitir impressões de estranheza e imensidão.

No entanto, nesse caso a matemática dos pontos de fuga se diluem na presença de um forte solvente intuitivo. Logo, as regras do espaço representado dão lugar a certa confusão dimensional, causando não só a sensação de distancia objetiva como também um deslocamento metafísico de quem olha.

O mirante usa de uma variedade de perspectivas diferentes para promover certa perturbação e desconforto do olho que tudo vê. O cérebro humano neste caso não consegue seguir as convenções visuais normalmente utilizadas para fazer as coisas simularem uma perspectiva estável. É através desses artifícios que se evidencia a hipótese sobre o ponto de vista de um observador sobrenatural, paranormal, ou por que não, divino.

A linha do horizonte está acima do ponto de intersecção das diagonais do plano. Desse modo a pintura designa a maximização da quantidade de terra visível, escolhendo como ponto de vista o topo de uma torre alta com vista para o eixo principal.

Nesse lugar da paisagem onde o horizonte encontra o céu, há uma interrupção da pintura pela presença do algodão cru da tela. Essa ausência de matéria no plano pictórico compõe um vácuo até que uma tarja de puro betume surge para abrigar um astro.

Através dessa perspectiva metafísica, pode-se observar em primeiro plano uma antena de transmissão. A radioatividade é registrada com golpes de ponta seca que trazem de volta a superfície de algodão da tela que está coberta de piche. À esquerda do eixo de embate entre a antena e o astro, vê-se quatro planos sem cor. À direita, uma estrada.

Ao que tudo indica, trata-se da representação de uma área de lavoura, um cinturão agrícola. O fato é que nessa mesma paisagem existem dois céus, um claro e outro escuro. Existem também dois satélites, um natural e outro artificial. E tudo isso está resolvido no marcante cruzamento dos eixos vertical e horizontal.

O mirante não existe, mas dá condições plenas para que se possa admirar um lugar onde tudo faz sentido quando a lógica não pretende desafiar o caos.

A cena distópica em questão não é uma tragédia anunciada, senão a

representação de um lugar comum. Ora real, ora imaginário, é um espaço onde se nota a presença de elementos óbvios e essenciais para o giro necessário da engrenagem global.

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_ENG

Portuguese pavement is generally composed of black and white limestone stones of irregular sizes and formats that exhibit several possibilities of decorative patterns. Patterns commonly seen on the pavements of Portuguese cities are also found in other Portuguese-speaking countries, former colonies of the then-Portuguese monarchy. In the case of the Brazilian metropolises, it is no different: some of the country’s oldest public pavements exhibit an array of familiar and com- plex decorative patterns.

With interest renewed within Brazilian modernist architecture, the Portuguese pavement has affirrmed itself in national public and private urban spaces in an undeniable and irreversible way.

This work portrays an ironic and paradoxical attempt to use carvings on post-colonial pavement to recreate the Effigy of the Republic, the same one printed on banknotes of the Brazilian real.

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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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