ENÉADE, 2021 – MANTA ASFÁLTICA LÍQUIDA SOBRE TELA/ LIQUID ASPHALT ON CANVAS. 41,5 x 37,5 cm CADA PEÇA /EACH PART
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FOTOS DE/ PHOTOS BY FILIPE BERNDT
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A cosmogonia é um termo que dá conta de diversas concepções da origem do universo segundo as mitologias. A maioria dessas concepções tenta desvendar o que é desconhecido e visa explicar a uma sociedade o que parece não ter explicação.

 

Segundo a mitologia egípcia, enéade consiste no agrupamento de nove divindades ligadas entre si por laços familiares. Esse grupo formava a base de uma alegoria que dava sustentação à história da criação do antigo Egito.

 

Na tentativa de explicar o surgimento do mundo, sacerdotes egípcios desenvolveram mitos e redigiram textos dentro das pirâmides em Heliópolis, cidade do baixo Egito. A partir daí, o advento dos elementos básicos que compõem a natureza poderia fazer sentido na mente de um povo que deveria venerar os seus deuses e seu faraó.  

 

A pintura Enéade empresta o termo da mitologia egípcia para que se possa lançar  num mesmo plano as ideias de natureza e divindade. Desse modo, nove urubus de espécies diferentes estão retratados aos detalhes em manta asfáltica sobre tela, um ao lado do outro, na tentativa de se elaborar um lugar sereno para o apreço desse animal.

 

Essenciais no processo de decomposição da matéria orgânica, os urubus são capacitores e catalisadores do ciclo natural da vida. Necrófagos, participam direta e indiretamente da decomposição da matéria orgânica morta.

 

Sabe-se que eles são um dos principais responsáveis por transformar moléculas orgânicas complexas em simples, para que o fungo a decomponha, e forme moléculas mais simples ainda, e em geral inorgânicas. Esse material formado é primordial para o desenvolvimento de toda a sorte de vegetal da Terra.

 

Nesse trabalho, a série de nove pinturas tenta traçar um paralelo entre o abutre e o divino, tendo como principal objetivo a conversão de um animal, habitualmente distante e silencioso, em ícone.
 

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Lightening attractors is a series of ten figurative drawings that use the language of technical drawing to offer an alternative to the obvious.

 

Electrical diagrams and layout and structural schemes taken from instruction manuals of some of the most popular house appliances served as the basis for the reconstruction of ten eccentric devices, adapted for a unique and mythical role: to attract the atmospheric discharges. In this way, a simple drill is equipped with a Franklin rod in place of a common drill so that it can summon thunder when pointed to a cloud loaded with ions.

 

Injected with a fictitious load, the white pencil drawings on black background deconstruct any minimalist trait found in the informational documents that accompany such appliances. And in place of “information” and “instruction,” “doubt” and “reverie” appear strategically to highlight art’s natural disposition to link the immaterial to the visible.

 

Although invisible, electrical energy is present when the light comes on or when the fan is turned on. The electromagnetic field can only be hinted at by its idea, but it becomes physical and incisive when we see it before our eyes when an object moves or stops moving. In a similar way, the lightning is the opportunity to watch the electric energy take form and behave as an image. That is, lightning becomes a monumental opportunity that the atmosphere gives us to see the energy of an electric discharge.

 

How to see an ion with the naked eye? How to position yourself before an idea without form?

 

Like the lightening, the art object can provide a time and a space for a glimpse of what is not accessed within the most abstract conditions of everyday life. In other words, art is perhaps the possibility of accessing what the everyday does not invite us to see, which is why it often confuses more than it clarifies.

 

To conclude, Lightening attractors render possible the desire to make real or visible what is hidden in our brazen world. However, it may be that this series is no more than a failed attempt at communication. So be it. In this case, it is yet another tribute to the failure of construction of language.

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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT