ANJO, 2019 – MANTA ASFÁLTICA LÍQUIDA SOBRE TELA /LIQUID ASPHALT ON CANVAS. 160cm x 200cm
FOTO DE/ PHOTO BY EDOUARD FRAIPONT
FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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Num certo evento de nome Convenção Nacional da Terra Plana, o texto de apresentação visa esclarecer o seguinte: 

 

"A Terra está parada. Não se move. A superfície da Terra é plana. Há uma cúpula sobre nós chamada o Firmamento. O sol, a lua e as estrelas estão sob a cúpula do Firmamento. O sol e a lua são muito menores e mais próximos do que nos dizem. O sol e a lua se movem em seus próprios padrões sobre a superfície da Terra. Não há planetas. Apenas estrelas no céu. Não há espaço. Não podemos sair da cúpula. Está tudo bem aqui, pessoal!"

 

Absurdo ou barbárie, o que se sabe é que os Terraplanistas carregam em seus argumentos considerações de origem bíblica. Reforçados no final do século XIX por um mapa proposto pelo estadunidense Orlando Ferguson (Map of the Square and Stationary Earth), seus argumentos se originam do fundamentalismo religioso, mais precisamente do livro Apocalipse, na Bíblia.

 

Baseiam-se na suposição de que haveria um plano cujo limite seria dado por paredes de gelo (o que seria nesse caso a Antártida), centralizado por sua vez no que se considera ser o polo norte. Em cada um dos quatro cantos desse plano, estaria um anjo protetor do suposto planeta:

 

“Depois disso vi nos quatro cantos do mundo quatro anjos em pé. Eles estavam segurando os quatro ventos da Terra a fim de que nenhum vento soprasse sobre ela, nem sobre o mar, nem sobre nenhuma árvore (Apocalipse 7:1)”

 

Com base critica às ideias supracitadas, Anjo estabelece uma possibilidade irônica de se considerar um milagre, o advento do uso do satélite como ferramenta crucial para a comunicação humana, num planeta que sempre foi esférico.

 

A pintura, feita com tinta asfáltica sobre tela, mostra em primeiro plano um satélite geoestacionário que está em órbita. Em segundo plano se nota a silhueta da Terra, delimitada pelo algodão da tela não pintada. Ao fundo, pontos que sugerem ser a presença de estrelas, umas mais brilhantes, outras menos.

 

A palavra anjo vem do grego ἄγγελος (ángelos) e do latim ângelus, e significa  “mensageiro”. São figuras muito importantes para a maioria das tradições religiosas desde a antiguidade até hoje. Tanto à tradição judaico-cristã, quanto aos muçulmanos, budistas, zoroastrianos, hindus e espíritas, a existência do anjo se confirma sob variados nomes ou tratamentos dados por cada um deles.

 

Provavelmente a cerca de 36 mil quilômetros da superfície da Terra, o satélite representado dota de uma aparência bastante orgânica. Como se estivesse vivo, esse aparato lembra um bicho, um enorme inseto, um monstro. Uma criatura mensageira, pintada com material fóssil.

 

O uso da tinta betuminosa é marcante. A escolha do material que tem origem nas camadas mais profundas da crosta terrestre é fundamental para que se evidencie o peso da historia. E a representação de uma complexa ferramenta tecnológica de comunicação com o uso de tinta asfáltica marca a pintura que, levada a cabo, pouco tem a dizer a respeito da existência dos anjos.

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Portuguese pavement is generally composed of black and white limestone stones of irregular sizes and formats that exhibit several possibilities of decorative patterns. Patterns commonly seen on the pavements of Portuguese cities are also found in other Portuguese-speaking countries, former colonies of the then-Portuguese monarchy. In the case of the Brazilian metropolises, it is no different: some of the country’s oldest public pavements exhibit an array of familiar and com- plex decorative patterns.

With interest renewed within Brazilian modernist architecture, the Portuguese pavement has affirrmed itself in national public and private urban spaces in an undeniable and irreversible way.

This work portrays an ironic and paradoxical attempt to use carvings on post-colonial pavement to recreate the Effigy of the Republic, the same one printed on banknotes of the Brazilian real.

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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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