HOMEM VELHO, 2019 – MANTA ASFÁLTICA LÍQUIDA SOBRE TELA /LIQUID ASPHALT ON CANVAS. 230cm x 160cm
FOTO DE/ PHOTO BY EDOUARD FRAIPONT
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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O trabalho é composto por dois momentos complementares. A parte inferior apresenta o universo da mosca branca, uma importante praga de lavoura. A parte de cima traça um paralelo entre a maneira cósmica como elas se organizam para devorar o alimento, e, por consequência, a possibilidade se vislumbrar uma constelação através da organização sistemática desta praga em ação.

 

A mosca branca é um inseto fitófago e costuma se alimentar da parte inferior das folhas das plantas. Relevante praga na agricultura, essa mosca é combatida de duas maneiras: com o uso irreversível de poderosos pesticidas ou através de controle biológico pela presença de predadores naturais.

 

O trabalho tenta dar conta de um certo equilíbrio natural, resultante de forças que convergem para que se evidencie o caos da simbiose.

 

A planta que não deveria ser cultivada em monocultura extrativista, precisa acontecer para que o motor agropecuário continue a semear o solo nacional. Para isso, a mosca que não deveria ser uma praga, precisa ser aniquilada de modo que o agricultor consiga distribuir a produção, pela mesma esteira que lhe traz o pesticida.

 

O Homem Velho projeta de maneira amoral o ser humano em função de um sistema complexo criado por ele mesmo. Do outro lado da ferradura, coloca também um simples inseto na plena função de praga.

 

A ação e a reação – desprovidas de qualquer moral – são mera proposta do conjunto de propriedades físicas que regem o mundo. Assim, a interrupção involuntária da lavoura pela ação da praga expõe a natureza como principal obstáculo a ser vencido pela civilização humana.

 

Alimento e safra. Homem e praga. Mitologia e ciência. As ambivalências propostas nesse trabalho são ferramentas para discussão sobre a maneira como a historia vem sendo contada há séculos. Ver o inseto como peste, ter uma praga no lugar de uma situação simbiótica, enxergar o lucro ao invés do motivo de subsistência, criar o mito para isolar a ciência. Estes são alguns dos modos como vem operando uma civilização programada a sobreviver em função de superar a própria saga.                                                                      

                                                                      

Em 1612 o missionário francês Claude d’Abbeville registrou 30 constelações enquanto acompanhava os Tupinambás da região do estado do Maranhão. Aprendeu e registrou minuciosamente os detalhes astronômicos e mitológicos dessas constelações na sua obra “Histoire de la Mission de Pères Capicins en l’isle de Maragnan et terres circonvoisins”, impressa e lançada em 1614 na capital francesa.

 

Dentre as constelações enumeradas pelo missionário, sabe-se que a “Constelação do Homem Velho” é uma das mais importantes para os povos nativos brasileiros, pois marcavam tanto o inicio do verão para os índios do sul quanto o inicio do período de chuvas para os índios da região norte do país.

 

Conta a mitologia dos índios da etnia tupi-guarani uma outra historia sobre o que a cultura grega identificou no céu como Orion e Touro. Nessa mesma região do espaço os tupinambás enxergavam a figura de um homem idoso cuja estória fora homenageada pelos deuses na forma de uma constelação.

 

Tal mitologia conta que homem velho se casou com uma índia muito bela, muito mais jovem do que ele. E que com o passar do tempo a jovem se apaixona pelo irmão mais novo desse homem, não podendo mais se comprometer com o que um dia jurara à sua tribo.

 

Ela tinha a idade do irmão caçula do velho índio. Apaixonada pelo cunhado, a índia percebe que tudo isso jamais poderia ser consumado enquanto casada. Com o tempo, ela não consegue mais ver qualquer solução senão matá-lo, de sorte que assim pudesse seguir a vida ao lado do amante.

 

Decidida, ela um dia aborda o ancião distraído e lhe aplica uma facada certeira na parte inferior de uma das pernas, para que sangrasse até a morte. O índio termina por perder a perna na tentativa frustrada do Pajé em tentar estancar o sangramento. Em seguida o velho morre, e sua morte provoca a compaixão imediata dos deuses.

 

Comovidos com essa historia, os deuses projetam no firmamento a imagem mutilada do homem velho de modo que – através da região onde se vê a constelação de Orion e de Touro – seja possível vislumbrar a sua silhueta com um cajado na mão.

 

A estrela Betelgeuse, cujo brilho é notável nessa região do céu, delimita o lugar onde a perna fora amputada. Essa estrela maciça é considerada pelos astrônomos uma Estrela Super Gigante Vermelha, e pela coloração de seu brilho, remete ao sangue derramado pelo homem velho ao ter perdido a perna.

 

A cabeça do homem velho é formada pelo aglomerado das Híades, o mesmo aglomerado que compõe a cabeça da constelação de Touro. O penacho do índio visto de frente é representado na forma do Aglomerado das Plêiades. As famosas Três Marias compõe o que vem a ser o seu outro joelho, e a Estrela Saiph delimita o seu único pé. Um dos braços é representado pelas estrelas que compõe o escudo de Orion. Por fim, o outro braço é representado por estrelas da constelação de Touro, que também compõe o seu cajado.

 

Na pintura, as estrelas estão representadas pelo que seria o agrupamento disciplinado das moscas. E através dessa organização se pode avistar a Constelação do Homem Velho, que aparece pelos golpes de ponta seca sobre a matéria da superfície.

 

O material usado para cobrir a tela de algodão é tinta asfáltica líquida. Piche. É talvez o derivado mais próximo do petróleo a ser adquirido na loja de material de construção mais próxima. Um fóssil liquefeito que ao ser diluído em solventes poderosos, pode impermeabilizar um plano de maneira irreversível e duradoura. Um fóssil escuro composto de brilhos que refletem através de sua matéria, um passado anacrônico.

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Portuguese pavement is generally composed of black and white limestone stones of irregular sizes and formats that exhibit several possibilities of decorative patterns. Patterns commonly seen on the pavements of Portuguese cities are also found in other Portuguese-speaking countries, former colonies of the then-Portuguese monarchy. In the case of the Brazilian metropolises, it is no different: some of the country’s oldest public pavements exhibit an array of familiar and com- plex decorative patterns.

With interest renewed within Brazilian modernist architecture, the Portuguese pavement has affirrmed itself in national public and private urban spaces in an undeniable and irreversible way.

This work portrays an ironic and paradoxical attempt to use carvings on post-colonial pavement to recreate the Effigy of the Republic, the same one printed on banknotes of the Brazilian real.

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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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