GUINA, 2021 – ESMALTE SINTÉTICO SOBRE BORRACHA E SUPORTE DE FERRO /SYNTHETIC ENAMEL ON RUBBER AND IRON BRACKET. 34,5 x 105cm
FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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Pintada com esmalte sintético sobre borracha, a cena que em duas partes sugere uma revoada de abutres num espaço amplo, traz também a ideia de que o bando aterrissa aos poucos no mesmo lugar.

 

O que fica é a ideia de movimento, fugacidade. Eles estão ali de passagem, talvez por algo que os tenha chamado a atenção. O retrato desse momento importa para que se reforce a sensação de que algo já aconteceu ou ainda vai acontecer.

 

Segundo a etimologia, a palavra “guina” é tanto variação da palavra “gana” quanto variação da palavra “guinada”. No entanto sabe-se que “gana” é desejo, impulso, ao passo que “guinada” é movimento brusco para desvio.

 

Nota-se nessa pintura que tanto o chão quanto o horizonte se compõem da ausência de tinta. Ao passo que o céu é, ao mesmo tempo que o bando de urubus, a presença matérica dessa mesma tinta.

 

Percebe-se também que movimento é para a direita. A composição é inclinada de modo que a “subida” aconteça nesse sentido. A existência dessa inclinação força a diferença de peso distribuído na composição do trabalho. Como se os abutres se encontrassem numa zona de aclive.

 

A paisagem um tanto quanto onírica traz a sensação claustrofóbica de um pesadelo. O lugar, que se compõe pelo próprio suporte escuro de borracha insinua a inexistência de um chão. E o céu, ao passo que tapa a escuridão do suporte para trazer luz, traz também o desiquilíbrio da composição. E para lidar com a situação de um céu torto, o coletivo se impulsiona repentinamente para estabelecer o desvio como tentativa de equilíbrio.

 

Guina é a representação de uma cena que quer contar a história de uma reação repentina tomada em grupo. Decerto, representa simbolicamente a vontade de um momento desconhecido em que se vive. Um tempo que é consequência de outro, também obscuro.

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_ENG

Portuguese pavement is generally composed of black and white limestone stones of irregular sizes and formats that exhibit several possibilities of decorative patterns. Patterns commonly seen on the pavements of Portuguese cities are also found in other Portuguese-speaking countries, former colonies of the then-Portuguese monarchy. In the case of the Brazilian metropolises, it is no different: some of the country’s oldest public pavements exhibit an array of familiar and com- plex decorative patterns.

With interest renewed within Brazilian modernist architecture, the Portuguese pavement has affirrmed itself in national public and private urban spaces in an undeniable and irreversible way.

This work portrays an ironic and paradoxical attempt to use carvings on post-colonial pavement to recreate the Effigy of the Republic, the same one printed on banknotes of the Brazilian real.

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FOTO DE/ PHOTO BY FILIPE BERNDT
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