MÁQUINAS PARA ATRAIR RAIOS, 2017 – GUACHE E LÁPIS CONTÉ SOBRE PAPEL /GOUACHE AND CONTÉ PENCIL ON PAPER. 70 x 50cm
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_PORT

Máquinas para atrair raios é uma série de dez desenhos figurativos que usam da linguagem técnica do desenho técnico para propor uma alternativa ao óbvio. 

 

Diagramas elétricos, esquemas estruturais de montagem e outras possibilidades explicativas foram extraídas dos manuais de instrução de alguns dos eletrodomésticos mais populares, para a reconstrução de dez excêntricos aparatos, adaptados a uma única e mítica função: a de poder atrair para si mesmos as descargas atmosféricas. Desse modo a uma simples furadeira se acopla, no lugar de uma broca comum, um captor Franklin para que possa invocar um trovão quando apontado por alguém a uma nuvem carregada de íons. 

 

Dotados de uma enorme carga fictícia, os desenhos em lápis branco ao fundo negro desconstroem qualquer possibilidade minimalista encontrada nos documentos informativos que acompanham tais eletrodomésticos. E no lugar de 'informação' e ‘instrução', aparecem de maneira estratégica a ‘dúvida' e o ‘devaneio'. Por fim, surge do escuro a disposição natural que a arte tem de ligar indiretamente o imaterial ao visível. 

 

Embora invisível, a energia elétrica se faz presente quando a luz acende ou quando o ventilador é ligado. O campo eletromagnético em si se vislumbra por sua ideia, mas se faz físico e incisivo ao vermos diante de nossos corpos tudo que se mexe ou deixa de mexer. De maneira parecida, o raio não deixa de ser a oportunidade de assistirmos a energia elétrica tomar forma e comportar-se como imagem. Ou seja, o raio passa a ser uma possibilidade monumental que a atmosfera nos dá de enxergar a energia de uma descarga elétrica.

 

Como enxergar um íon a olho nu? Como posicionar-se diante de uma idéia sem forma?

 

Assim como o raio, o objeto de arte pode fornecer um tempo e um espaço de vislumbre daquilo que não se acessa dentro das condições mais abstratas do cotidiano. Em outras palavras, a arte é talvez mais uma possibilidade de acessar algo que o cotidiano não convida a ver; por isso muitas vezes confunde mais que esclarece. 

 

Para concluir, Máquinas para atrair raios prestam um favor a essa vontade de tornar real ou visível o que está escondido nesse nosso mundo tão descarado. No entanto, pode ser que essa série não passe de mais uma tentativa falha de comunicação: então que assim seja, mais uma homenagem ao fracasso da construção da linguagem.

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_ENG

Lightening attractors is a series of ten figurative drawings that use the language of technical drawing to offer an alternative to the obvious.

 

Electrical diagrams and layout and structural schemes taken from instruction manuals of some of the most popular house appliances served as the basis for the reconstruction of ten eccentric devices, adapted for a unique and mythical role: to attract the atmospheric discharges. In this way, a simple drill is equipped with a Franklin rod in place of a common drill so that it can summon thunder when pointed to a cloud loaded with ions.

 

Injected with a fictitious load, the white pencil drawings on black background deconstruct any minimalist trait found in the informational documents that accompany such appliances. And in place of “information” and “instruction,” “doubt” and “reverie” appear strategically to highlight art’s natural disposition to link the immaterial to the visible.

 

Although invisible, electrical energy is present when the light comes on or when the fan is turned on. The electromagnetic field can only be hinted at by its idea, but it becomes physical and incisive when we see it before our eyes when an object moves or stops moving. In a similar way, the lightning is the opportunity to watch the electric energy take form and behave as an image. That is, lightning becomes a monumental opportunity that the atmosphere gives us to see the energy of an electric discharge.

 

How to see an ion with the naked eye? How to position yourself before an idea without form?

 

Like the lightening, the art object can provide a time and a space for a glimpse of what is not accessed within the most abstract conditions of everyday life. In other words, art is perhaps the possibility of accessing what the everyday does not invite us to see, which is why it often confuses more than it clarifies.

 

To conclude, Lightening attractors render possible the desire to make real or visible what is hidden in our brazen world. However, it may be that this series is no more than a failed attempt at communication. So be it. In this case, it is yet another tribute to the failure of construction of language.

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